
Não sou pedagogo, mas dou um duro danado para educar meus filhos. Leio, experimento, pratico e faço tudo para que eles cresçam educados. Também ao longo de 40 anos de idade, vividos aqui e acolá, também tive a experiência de ver algumas sociedades, diferentes e ao mesmo tempo com tantas similaridades com a nossa. Baseado nisto é que pretendo aqui traçar um paralelo entre
filhos e
cidadania, usando como elo de ligação a
educação.
O que isto quer dizer? Bem, ao longo da minha experiência como pai (e observador de outros pais e mães), concluí que não se pode educar uma criança sem quatro coisas extremamente importantes e dependentes entre si:
informação,
regras (ou limites),
exemplo e, se necessário,
punições (não falo de castigo físico ou castigos de forte apelo psicológico ou humilhantes - bater ou constranger não é educar!)
A
informação é aquilo a que muitas vezes resumimos incorretamente a palavra "educação". Informação é dizer o que é certo ou errado. Falar, mostrar, contar, ensinar. A criança tem que ouvir, ver e ler sobre o que deve ou não fazer, ok? As
regras (ou rotina ou ainda limites) é aquela parte onde pais dizem a hora certa de fazer as coisas, o que fazer na mesa, as boas maneiras, a hora certa de dormir, a hora de estudar, o limite do vídeogame, enfim, estas coisas. E regras são regras, devem ser aplicadas sempre e não quando dá vontade (todo pai sabe que não adiantam regras que só existem às vezes - isto não educa ninguém, muito ao contrário). O
exemplo, terceiro pilar da educação, é dos mais importantes e muitas vezes negligenciado. Não adianta que um pai diga para o filho que ele deve ser educado ou que deve comer bem, se ele, pai, só come bobagem, dá grito nas pessoas, coloca o dedo no nariz dentro do carrro, esbraveja no trânsito ou ainda, dá mostras diárias como "ser esperto para se dar bem". Criança faz o que vê, não o que escuta, ok? Se tudo falhar - e apenas neste caso poderia ser correto aplicar - uma
punição correta e de acordo com o erro deve ser aplicada. Hoje em dia alguns pais não querem mais punir (ou "dar limites") mas isto é tema para outro post... Bem, o ato de punir (sem qualquer violência constrangimentos ou humilhações), para uma criança informada, que sabe as regras e que tem exemplos, mas que ainda assim fez coisas erradas, muitas vezes é o último - e não menos válido - artifício. Após um erro grave, deixar sem brincar com os amigos durante uma tarde ou não brincar de vídeogame é algo que faz parte da educação e que deve ser aplicado de forma reta e sem dúvidas - a criança precisa saber que se falhar a tudo, a punição certamente virá.
Na minha visão, a prática cotidiana e sem interrupções destes quatro princípios (aliado a uma enorme leveza, amor incondicional, disponibilidade dos pais e muita brincadeira) é a base de uma criança educada. Ah, e isto passa entre gerações! O irmão mais novo de uma criança educada, rapidamente aprende o certo e o errado. Assim como o irmão mais novo de uma criança sem limites, rapidamente entende a "manha da casa" e, sem dúvida, será uma criança igualmente sem limites.
Pois bem e o que isto tem com cidadania? Explico. Uma sociedade cidadã, com indivíduos cientes do que é o papel de um cidadão, também precisa destes quatro pilares, pelo menos na minha visão.
Uma sociedade cidadã precisa de
informação, acesso a escolas, faculdades, computadores, institutos, parques e museus. Precisa de acesso a saber sobre o que é o bem e de como vale a pena fazer o bem. Igualmente, uma sociedade precisa de
regras - o que comumente chamamos de
Lei - que deve ser igual para todos, que todos devem conhecer e que deve normatizar a vida comum de todos. Em terceiro lugar, uma sociedade também precisa de
exemplo. Cargos hierarquicamente mais altos nas empresas devem dar exemplo a quem está nos cargos mais baixos. Gestores públicos devem dar exemplo, de correção, de adequação às regras, para todos aqueles que os elegeram e que estão sob a sua administração. Uma sociedade, tal como uma criança, é extremamente sensível ao que vê. Por fim, uma sociedade também precisa de
punição, sempre que os outros pilares estejam sendo executados e sejam quebrados por práticas ofensivas. Isto significa que quem faz o errado deve ser punido, na medida certa, com ampla defesa, claro, mas de forma direta - sem escolhas, aleatoriedade ou pontos de fuga.
E nós, no Brasil? Somos hoje uma criança bem educada?
Nós vivemos em um ambiente onde a
informação, apesar de todas as evoluções dos últimos anos, ainda é privilégio de poucos. Ainda vivemos em um meio onde ensinar que o bem compensa é quase "careta" e cada vez mais falar do "bem" parece distante dos principais meios de divulgação de informação de massa. Por outro lado as
regras não são o nosso forte. Somos o país da "lei que não pega" e mesmo para as "que pegam", valem para poucos. Construções desordenadas, ocupação indevida de espaços, rejeição a qualquer tipo de regras (do condomínio ao clube), práticas de abuso ao consumidor e ao cidadão comum, além do pouco respeito (aliado ao desconhecimento) à Lei, fazem parte do nosso cotidiano. Não é bom, mas vejo assim. Além disso, a cultura do
exemplo está desaparecendo. Chefes, donos, gestores públicos ou privados, enfim, toda sorte de pessoas que chegaram em postos mais altos, muito ao contrário de serem bons exemplos, tornam-se maus exemplos de que "estão acima do poder das regras" e fazem o que querem - de errado, claro! Por fim, a
punição em nossa sociedade é aleatória, para poucos, ineficaz e, em largo espectro, sem efeito. Um exemplo rápido sobre isto. Você sabia que em nossas cidades não existem policiais em todas as esquinas? Pois é, em nenhum país do mundo tem. Ora, se é assim, por que aqui faz medo andar nas ruas e em outros lugares não? Alheio às complexidades naturais da pergunta, não posso deixar de achar que é porque o criminoso joga com duas probabilidades - a de ser apanhado e a de ser punido caso apanhado. A depender do grau de policiamento no local em questão, a primeira probabilidade - ser apanhado - pode ser baixa ou muito baixa, em qualquer lugar do mundo. Mas a segunda - ser punido se apanhado - em sociedades avançadas será alta, claro! No Brasil, ambas as probabilidades são baixas! Aqui é difícil ser apanhado e mais, muito mais difícil ainda, ser punido, logo...
Como será o comportamento de uma criança que não recebeu a informação do que é correto, ignora regras, não tem exemplos e não é punida quando faz as coisas erradas? Pois é, somos hoje uma criança, um país jovem ainda, claro, mas repleto de problemas de educação como sociedade.
Será difícil consertar em algumas décadas estes problemas, mas precisamos - todos juntos, afinal isto não é um problema só "do governo" - correr atrás do prejuízo!