Como eles conseguem?

19 Outubro 2011
Ao longo dos últimos anos, temos visto um conjunto de licitações (editais, contratações públicas) que têm sido vencidas por empresas que apresentam preços completamente absurdos, impraticáveis. Algumas licitações de desenvolvimento de software têm sido vencidas com preços à volta dos R$ 350,00, R$ 300,00 - ou menos - por "ponto de função". Há editais com resultados de R$ 260,00, R$ 220,00 ou menos o ponto de função!

O ponto de função é uma medida que permite calcular, através de um procedimento de cálculo padrão, o "tamanho" de um software, independentemente da sua tecnologia. Não é uma medida de esforço, mas de tamanho. Para tentarmos traduzir esta medida em uma média de esforço, a literatura (e a prática) diz que para produzir o equivalente a um ponto de função utilizando a linguagem Java, gastamos uma média de 15 a 20 horas-homem (com casos para mais). Vamos partir destes valores para esboçar o raciocínio.

Considerando a produtividade de 15 horas, poderíamos dizer que a hora "média", de preço de venda, de uma empresa que vende o ponto de função de desenvolvimento de software por R$ 345,00 é de R$ 345,00 / 15 horas = R$ 23,00 / hora média (preço de venda!!). Vi uma reportagem esta semana mostrando guardador de carro cobrando de R$ 50,00 a R$ 150,00 (!!!). Crítico não é? Mas pode piorar, veja abaixo.

Lembre-se que R$ 23,00 é o valor BRUTO por hora trabalhada. É possível imaginar que a hora média de uma empresa que desenvolve software seja de R$ 23,00? Lembre ainda que esse valor deverá pagar:
  • Os impostos;
  • O time que irá trabalhar diretamente na construção do software;
  • O time de apoio - gerentes, qualidade, área administrativa, estagiários, suporte, equipe comercial;
  • A estrutura: posto de trabalho, hardware, software, links, espaço de trabalho, ...
  • Custos inerentes à produção do software: treinamento, gaps entre atividades, retrabalho, garantia do software, erros, férias do pessoal, faltas, ...
  • Custos de apoio: viagens (caso o cliente não esteja na cidade onde o fornecedor está), deslocamentos, atrasos de pagamento, demoras de aprovação, reuniões de acompanhamento, ...
  • O retorno da operação para os acionistas.

Considerando todos esses cálculos, você rapidamente vai chegar à conclusão que um profissional desta empresa teria um salário médio de R$ 1.100 - R$ 1.200, totalmente FORA da realidade, ainda mais como salário MÉDIO. Lembrar que estou exemplificando com um valor de ponto de função de R$ 345,00 e há situações MUITO PIORES!!! Com um ponto de função há R$ 260,00 (vi na semana passada) o valor da hora média vai para R$ 17,00... E ainda há pior...

Moral da história, esta empresa vencedora desta licitação não vai entregar o serviço que lhe foi contratado, o cliente/governo vai ser prejudicado, os profissionais serão prejudicados, o mercado será prejudicado, enfim, todos saem prejudicados!!! E isto vindo do governo, que além do tradicional papel regulamentador, também poderia exercer - e de que maneira! - o papel de fomentador do desenvolvimento.

É necessário que seja compreendido este problema existe - que fica mascarado debaixo da "economia do pregão" e que não leva em conta os prejuízos das contratações ruins - e que sejam discutidos procedimentos de compras saudáveis, que obviamente não devem deixar de lado o princípio da economicidade, mas que também não permitam (nem incentivem!) que os vencedores de contratações públicas acabem por realizar práticas negativas ao mercado, ao poder público e aos profissionais que fazem parte da equipe da própria empresa. Com práticas mais saudáveis de compras, certamente que os órgão públicos teriam resultados melhores nos seus contratos de TI, o que se refletiria em benefícios e melhores serviços para o cidadão comum.

Medidas simples como a demonstração de exequibilidade do valor ofertado pelo vencedor, uma análise detalhada do nível técnico das empresas, a análise de contratos anteriores da empresa vencedora, a análise dos salários do quadro de funcionários da empresa vencedora e um registro de empresas (e de seus sócios) que deliberadamente praticam dumping de preços, proibindo-as e proibindo-os de repetir o ato, já poderia dar um freio a este ôba-ôba. Há bons exemplos de contratação que poderiam ser analisados e difundidos para outros órgãos. Igualmente importante é discutir o formato de contratação dos serviços (fábrica de software em ponto de função faz mesmo sentido?) e o poder de desenvolvimento do governo (que tal pontuar empresas locais ou consórcios que envolvam empresas locais?).

Com a adoção de medidas como estas nós teríamos o poder público contratando um pouco melhor, de forma mais eficiente e, volto a dizer, de forma mais saudável.

O mercado e os profissionais de TI agradeceriam.

3 comentários:

Karlson disse...

Concordo plenamente meu amigo. Este tipo de prática só causa prejuízos. Prejudica até as empesas que querem trabalhar direito!

Rafael Sales disse...

Muito bom post. É uma pena que a moda indiana esteja pegando até nas licitações... Esperemos que estes órgãos percebam logo que o barato pode sair caro.

PS: Li o post escutando sua gravação de Motorcycle Driver. Ficou show!

Alê! Gomes disse...

Acho que vc vai gostar deste grupo [1] e, em especial, das threads [2,3]. Aqui em Brasília, já discutimos muito o assunto [4,5,6].

[1] http://groups.google.com/group/contratacao-publica-ti
[2] http://groups.google.com/group/contratacao-publica-ti/browse_thread/thread/88612f762e57f3ad
[3] http://groups.google.com/group/contratacao-publica-ti/browse_thread/thread/a8b193e730c682db
[4] http://www.slideshare.net/seatecnologia/agilidade-licitacoes
[5] http://www.slideshare.net/seatecnologia/pra-voc-desenvolver-software-atividade-intelectual
[6] http://www.slideshare.net/seatecnologia/agilidade-no-governo